IV. Conversação
Irmão Lourenço conversou comigo com muita frequência, e com grande
abertura de coração, com respeito à maneira
de ir a Deus, o que aliás, já mencionamos alguma coisa. Me disse que tudo
consiste de uma renúncia de coração a todas as coisas que nos impedem de chegar a Deus. Podemos nos acostumar a
conversarmos continuamente com Ele com liberdade e simplicidade. Para nos
dirigirmos a Ele a cada momento, só necessitamos reconhecer que Deus está
intimamente presente conosco, e que podemos pedir sua ajuda para conhecer a sua
vontade em coisas duvidosas, e fazer corretamente aquelas coisas que nós
compreendemos claramente que Ele exige de nós. Na nossa conversa com Deus,
devemos também louvá-lo, adorá-Lo e amá-Lo pela sua infinita bondade e
perfeição. Sem desanimarmos pela soma dos nossos pecados, devemos orar pedindo
sua graça com uma perfeita confiança, acreditando nos méritos infinitos do nosso
Senhor, porque Deus nunca deixa de oferecer continuamente sua graça. Irmão Lourenço viu isso muito claramente. Deus jamais
deixou de oferecer sua graça, exceto quando os pensamentos do Irmão Lourenço
começavam a divagar e perdiam seu sentido da presença de Deus, ou quando se
esquecia de pedir Sua ajuda. Quando não temos outro propósito na vida
exceto o de agradar-Lhe, Deus sempre nos dá luz em nossas dúvidas. A nossa santificação não depende de uma
mudança de atividades, mas de fazer para a glória de Deus tudo o que comumente
fazemos a nós mesmos. Pensava que era lamentável ver como muita gente confunde
os meios com o fim, dedicando-se a fazer certas coisas muito imperfeitamente por
causa de suas considerações humanas ou egoístas. O método mais excelente que
havia encontrado para ir a Deus, era fazer as coisas mais comuns sem
tratar de agradar aos homens, mas unicamente por amor a Deus. Irmão Lourenço sentia que era uma grande ilusão pensar que o
tempo dedicado à oração era diferente de outros momentos do dia. Estamos
estritamente obrigados a unirmos a Deus através da ação no momento da ação, e
por meio da oração na hora da oração. Sua própria oração nada mais era que um
sentimento da presença de Deus, quando sua alma não era sensível a nada, exceto
ao Amor Divino. E quando terminava seus momentos dedicados à oração, não
encontrava qualquer diferença, porque permanecia
com Deus, louvando e bendizendo com toda a sua capacidade. Assim passava sua
vida em uma alegria contínua, mas esperava que Deus permitir-lhe-ia algum
sofrimento quando estivesse mais forte. Irmão Lourenço dizia que, de uma vez por
todas, deveríamos colocar toda nossa confiança em Deus e nos entregar
totalmente a Ele, seguros de que não nos decepcionará. Não devemos nos cansar de
fazer as coisas pequenas por amor a Deus, porque Ele não leva em conta o
tamanho da obra, mas o amor com que a realizamos. Que não devemos nos
surpreender se no princípio, falharmos
frequentemente em nossos intentos, mas que ao final adquiriremos um hábito que
naturalmente nos fará agir sem que nos preocupemos com ele, para nosso
maior deleite. A base da religião era a fé, a esperança e a caridade, e se as
praticarmos chegaremos a estar unidos à vontade de Deus. Todo o resto é
de menor importância, e deve ser utilizado
como um meio para chegar a nosso objetivo, e então todo o resto deve ser
absorvido pela fé e o amor. E todas as coisas são possíveis para o que crer,
são menos difíceis para o que espera, e são mais fáceis para o que ama, e
ainda mais fáceis para o que persevera na
prática destas virtudes. O fim de que devemos perseguir é: tornar-se nesta vida,
os adoradores de Deus mais perfeitos que possamos ser, os adoradores que
esperamos ser por toda eternidade. Dizia que quando chegarmos a esse nível
espiritual deveríamos considerar e examinar a fundo o que somos. E então nos encontraríamos dignos de todo o desprezo, e não
merecedores do nome de cristãos, sujeitos a toda sorte de misérias e de inúmeros
acidentes que nos preocupam e causam vicissitudes perpétuas em nossa saúde,
nossos humores, nossas disposições internas e externas. Somos pessoas que Deus
poderia humilhar através de muitas dores e trabalhos, interiores e exteriores.
Após isto, não deveríamos surpreender-nos que os homens nos tentem, se oponham a
nós e nos contradigam. Pelo contrário, devemos nos submeter a essas provas, e
suportá-las tanto como Deus queira, porque são coisas altamente
vantajosas para nós. A maior perfeição a que pode aspirar uma alma, é a
total dependência da Misericórdia Divina. Sendo questionado por alguém de sua
própria comunidade (para quem estava obrigado a abrir-se), sobre o meio pelo
qual ele tinha obtido esse sentimento da
presença de Deus, disse-lhe que, uma vez que ele tinha chegado ao mosteiro havia
considerado a Deus como o fim de todos os seus pensamentos e desejos, como a
meta a qual todos devem aspirar, e na qual todos devem terminar. Ele
lembrou que no início de seu noviciado passava as horas indicadas para oração privada pensando em Deus, tratando de
convencer a sua mente e de impressionar profundamente o seu coração da
existência de Deus, e o fazia melhor por meio dos sentimentos de devoção e por submissão a luz que lhe dava a fé, que por
estudados raciocínios e elaborada meditação. Por este método simples e seguro,
se exercitou no conhecimento e no amor de Deus, resolvendo utilizar seus maiores
esforços para viverem um contínuo sentimento de sua presença, e, se
possível, não esquecer jamais a Deus. Então,
depois de encher a sua mente com o sentimento daquele Ser Infinito, ia
trabalhar na cozinha (porque ele era o cozinheiro da comunidade). Lá, em
primeiro lugar considerava cada uma das coisas que precisava de sua
participação, e quando e como devia ser feita a cada coisa, e antes de iniciar
sua ação dizia a Deus, com a confiança deum filho a seu Pai: "Oh, meu Deus, porque você
está comigo, e porque agora devo, em obediência às suas ordens, aplicar minha mente a
essas coisas externas, eu suplico-lhe conceder-me
a graça de continuar em sua presença, e encaminhar-me para este fim coma sua ajuda. Aceita todos os meus trabalhos, e possui
todos os meus afetos. Enquanto trabalhava
continuava sua conversação familiar com seu Criador, implorando sua graça, e oferecendo a Ele todos os seus atos. Quando
terminava, examinava a si mesmo para ver como tinha cumprido o seu dever. Se viu que tinha
feito bem, dava graças a Deus. Se não
tivesse feito bem, Lhe pedia perdão, e sem desanimar-se, de novo colocava amente em ordem. Então continuava seu exercício da
presença de Deus, como se nunca tivesse
se afastado Dele. "Desta forma", disse ele, "me levantava depois
de minhas faltas, e mediante renovados e
frequentes atos de fé e amor, tenho chegado a um estado no qual é difícil não pensar em Deus, o que no
princípio era difícil me acostumar comisso.
"Porque o Irmão Lourenço tinha encontrado uma vantagem tal em andar na presença de Deus, era natural que a recomendasse a
outras pessoas encarecidamente. Porém o
que é mais surpreendente, seu exemplo era um incentivo mais forte do que qualquer argumento que poderia ser proposto. No seu
semblante se via com tal devoção doce e
calma, que não poderia não afetar aqueles que contemplavam. E não se poderia deixar de ver que, nos momentos de maior aflição no
trabalho na cozinha, ele continuava mantendo suas ideias e inclinações
celestiais. Nunca estava aflito ou ocioso, mas fazia cada coisa no seu devido tempo, com uma calma e tranquilidade
de espírito que não se interrompiam
nunca. Dizia: "Para mim, o tempo de trabalho não é diferente do momento de
oração, e no meio do barulho e alvoroço da minha cozinha, com várias pessoas pedindo coisas diferentes ao mesmo tempo,
tenho uma grande tranquilidade em Deus,
como se estivesse sobre meus joelhos na Santa Ceia".
(...)